segunda-feira, 27 de abril de 2015

Condições



Persuades o meu corpo a não te resistir.
Convences a minha mente a não te esquecer.
Invades o meu coração com tudo o que é teu.
Arrebatas a minha alma para junto da tua.
Sim, eu deixo. Mas...
Nunca subjugarás a minha vontade.
Nunca transfigurarás a minha essência.
E jamais domarás o meu ego.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Momentos...



Despida de preto, brindo-te com o meu corpo
Vestido de pele, de aromas,  de promessas de ficar e de voltar,
De momentos de mistério onde nos imolamos
Para que nenhum pedaço da minha pele fuja
e, em  êxtase, possamos construir um poema em carne viva.
Desalinhado, é certo!
Como o meu cabelo, o teu olhar, o teu corpo.
Como nós.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Timing


Delineou o plano em traços gerais, olhou o relógio e percebeu que teria de se apressar. Já não faltava muito para a hora marcada e tudo teria de funcionar na perfeição. Escreveu previamente as mensagens a enviar no timing exacto. Escolheu o vinho, e deixou a chave da entrada estrategicamente colocada debaixo do tapete. 
Agora, só faltava preparar o cenário. Espalhou velas pela casa de banho e encheu a banheira de água e espuma. Apagou todas as luzes e aguardou que o toque do telefone lhe indicasse que ele a esperava no carro. Mensagem após mensagem, fê-lo seguir as suas instruções. Subir, abrir a porta, entrar na casa de banho, tirar a roupa, entrar na banheira... Escondida no quarto, esperou pelos sons na água para escolher o momento para aparecer. Despiu-se, pegou nos dois copos, abriu a porta e disse:
-Pst... Há aí lugar para mais alguém? 

segunda-feira, 20 de abril de 2015


Começam a chatear-me, os teus pretéritos.
Apetecia-me conjugar outra coisa qualquer.
Um presente na 1ª pessoa do plural, talvez.
Seria uma novidade refrescante.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

yin-yang


Ela achava intrigante e fascinante. Ele provocava-lhe aquela alternância drástica, mas tão natural, entre os dois extremos de si.
Primeiro, a tempestade. A vontade de lhe cravar as garras até magoar. As ordens urgentes... "Fode-me!". 
E os pedidos suplicantes... "Não pares!" 
As palavras ditas num misto de grito e sussurro. As pernas cruzadas em torno da cintura dele. A empurrá-lo mais e mais para dentro. Até ao limite do impossível. A necessidade de lhe sentir a força. Olhar nos olhos. Naquele momento ser apenas fêmea e macho. Com o objectivo primordial do prazer.
E depois... segundos depois, a serenidade plena. A vontade de se enroscar no colo dele. Como um gatinho. E ali descansar. E ali ficar protegida.
Inexplicável...

quinta-feira, 16 de abril de 2015



Tinha feito a escolha dela para aquela noite, mas não sabia o que a esperava. Ele propora-lhe copos ou beijos, e ela escolhera tudo. Na sua distracção habitual, nem mesma a travessia da ponte lhe dera uma pista. Só percebeu depois de ver saídos do porta-bagagens, todos os segredos que ali se encerravam. Naquele segundo, podia ter-lhe dito que... Que era das coisas mais bonitas que já lhe tinham feito. Que não se importava que fosse só uma manobra de sedução. Que não estava habituada a ser tratada assim. Apeteceu-lhe dizer tanto, que não conseguiu articular nada. Quis agarrar-se ao pescoço dele e enchê-lo de beijos agradecidos, mas também não foi capaz. Sentia-se tão pequenina e paralisada, que apenas tentou disfarçar toda aquela embriaguez emocional. Ele apelara-lhe ao seu lado mais sentimental e lamechas, que tanto a irritava e que ela fazia tudo por esconder. Não se podia permitir baixar a guarda tão cedo. Simplesmente não podia. Mas teve a certeza que um dia encontraria as palavras certas para lhe explicar. Perdida por mil pensamentos, olhava-o enquanto ele pegava nos objectos que trouxera. Dois copos, uma garrafa de vinho tinto, uma toalha de praia. Tão simples... como só as coisas inesquecíveis o são. A lua afastou-se de cena para encobrir os dois amantes numa escuridão cúmplice. Mas reza a história que houve copos e areia, beijos e maresia. E houve momentos daqueles capazes de marcar a vida das pessoas para sempre.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Prece



E por entre soluços e gemidos, ela pensou que não aguentava mais.
Porque não aguentaria mesmo.
Não que tivesse atingido o seu limiar de resistência física.
Não, não era a energia que lhe faltava.
Mas estava absolutamente convicta de que o seu corpo não suportaria mais prazer.
Mais um movimento que fosse, dele dentro dela, e os danos cerebrais teriam sido, certamente, irreversíveis.
Então, quase à beira das lágrimas, deu por encerrada a conversa que estava a ter com Deus e desceu à Terra.
Quando os corpos se separaram, a alma voltou-lhe à carne e a consciência ao seu lugar de sempre.
Tinha acabado de chegar do Paraíso e do Inferno, ao mesmo tempo.