quarta-feira, 23 de março de 2016

Não há meios termos


Ou quer ou não quer. Ou ama ou não ama. Ou deseja ou não deseja. Aborrecer-se com uma existência banal? Ou desassossegar-se com um viver intenso? Podia escolher o caminho simples. Sabe que sim. Mas sabe que só se frustraria numa acomodação contrária à sua natureza. Prefere os demónios e os terrores. O frio na espinha pela iminência do abismo. Se for para sentir que seja com o corpo todo. Se for para amar que seja até mais não.
Há coisas que fazem acreditar que vale a pena. "Amo-te muito" e "fode-me com força" num mesmo destinatário é capaz de ser infernalmente paradisíaco.
Mesmo que se fique sem cabeça, até la... vive-se. 
Afinal de contas, não será esse o crime perfeito?

segunda-feira, 21 de março de 2016

O relógio marca duas da manhã.


O termómetro, se existisse, certamente marcaria algum número indecente. De um lado do quarto, a janela está totalmente aberta... do outro, uma ventoinha tenta fazer o resto do trabalho. Mas mesmo assim ela não consegue dormir. O calor é demasiado e os seus pensamentos ainda mais. Deitada na cama e olhando para lado nenhum, vê o passado e o futuro. Vê as tatuagens do que fez e as promessas do que pode vir a ser feito. Nada faz muito sentido, afinal de contas. Nem nada daquilo deveria importar. Mas não consegue adormecer. Na verdade, hoje nem sequer lhe apetece não pensar. Decide apenas desfrutar da viagem que a sua mente lhe oferece. Dá-lhe a mão e embarcam juntas.
Recordações voam. Pessoas passam e pessoas ficam. Apercebe-se de como tudo é instável. De como basta um segundo para deitar por terra qualquer castelo de cartas. Continua a não perceber muitas coisas. Quase tudo, aliás. Os ciclos não param de se fechar, de se renovar. As dúvidas e as certezas limitam-se a subir ao poder alternadamente.
E ainda por cima o calor. Deve ser do calor.
Ou da insónia.
O relógio marca três da manhã.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Fim de tarde




Envolveu-se nela e sentou-a no sofá daquela casa deserta. Despiram-se de tudo, menos do desejo que lhes levava o corpo e a alma ao fogo do inferno. Ela estava indefesa, entregue. Deitada, esperando-o dentro dela. E ele obedecia. Lia o calor da sua pele e empurrava-a contra si em investidas que eram de paixão, de raiva, de tesão. E de muito mais coisas que ele desconhecia. Depois parava. Com os lábios, procurava o sabor da vontade das entranhas dela. Embriagava-se e voltava a perder-se. O mundo, para além daquela fêmea que se estendia e contorcia por ele e só por ele, apagara-se todo duma só vez. Voltaria alguma vez a existir?

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Confissão




"Deixas-me o corpo em guerra e não sei se quero chegar a alguma reconciliação.
Gosto do prazer assim, inteiro. Mais pragmático que romântico.
Já percebeste que sou pouco pudico! Não gosto de sensações amordaçadas nem intimidades contidas! Gosto de te morar e que te demores em mim, assim… sem zonas delimitadas ou espaços por ocupar.
Adoro a nossa linguagem!.. A língua a tratar o corpo por tu principalmente!
O olhar perfeito e sem sotaque, da boca a morder e um orgasmo a chegar…queres falar?
Fazer amor é ceder o corpo ao toque, mergulhar no outro e explodir por dentro.
E tu meu amor?! – Queres fingir ou desmoronar o teu corpo em mim?
-Vem! Estou aqui, Como se agora fosse para sempre e o amanhã uma eternidade para chegar.
Tranca a porta e perde a chave! Assim ninguém vai desertar ou delirar para lá das paredes.
Diz-me que estás em guerra, que a cama é apenas um pretexto para me fazeres prisioneiro entre as tuas pernas. Se não me queres como herói, deixa-me apenas ser quem sou… um vilão inquieto e desobediente. Não te defendas nem resistas, porque o prazer para o ser quer-se forte, feroz e sem extinção. Entre o grito e a vertigem,… o desassossego primeiro e depois a alucinação!
Podemos começar? – ou preferes palavras bonitas para ficar a olhar?
Despe-te de cerimónias, desnuda-te … Anda, vamos fazer asneiras! Não te rendas.
O sexo é uma guerra onde quero tudo menos paz!"



Telmo Mendes

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Gosto...


Quando me deixas explorar zonas em conflito
Quando entregas o teu corpo à mercê do inimigo
Quando fechas os olhos e me deixas liderar a galopada
Gosto...
Da maneira como mordes o lábio inferior tentando suster o grito de vitória.
Gosto de sentir-te assim... vulnerável e tão meu...

segunda-feira, 19 de outubro de 2015